Na tragédia de Hamlet, somos apresentados por Shakespeare à famigerada frase “Ser ou não ser, eis a questão”, em inglês, to be or not to be, that is the question. (SHAKESPEARE, 1978). Segurando uma caveira, o príncipe da Dinamarca reflete com essa simples frase sobre a vida e a morte, expondo a dúvida de que se é melhor suportar a existência cheia de tormentos e provações ou abraçar a morte e sua incerteza.

Diante do atual momento histórico, nós como sociedade humana temos que enfrentar pela primeira vez a real possibilidade de nossa extinção em massa. Tal acontecimento pode se tornar possível graças ao desgaste completo de nossos limitados recursos naturais, tornando nosso solitário planeta inviável para a vida que levamos hoje.
Posto isto, a consciência coletiva é confrontada com a dúvida: continuamos a levar esta vida insustentável condenando nosso futuro e as próximas gerações ou buscamos o equilíbrio entre o suprimento das necessidades humanas e a preservação dos recursos naturais?
A escolha parece simples, mas para abraçarmos a melhor opção enfrentaremos nosso maior desafio: sobrepujar a cegueira do egoísmo. Alguns filósofos, como o polones Zygmunt Bauman, apontam a modernidade como a época em que a vida social passa a ter como centro a existência do individualismo tornando as relações frágeis e líquidas (BAUMAN, 2001). Consequentemente, corremos o risco de fecharmos os olhos para os iminentes problemas que nos ameaçam, em troca de conforto momentâneo.
Sendo assim, a luta será contra o mais difícil inimigo que podemos ter: nós mesmos. Recordamos então um velho ditado indígena que diz que dentro do coração do homem há dois lobos lutando. Um lobo é mau. Ele é a raiva, a inveja, o arrependimento, a arrogância, o ressentimento e o ego. O outro lobo é bom. Ele é a alegria, a paz, o amor, a gentileza, a empatia, a verdade e a compaixão. Qual dos lobos vence? Aquele que alimentamos mais.

Como construtores de nossa sociedade, ao escolhermos empreender nosso futuro com projetos sustentáveis, alimentamos o que há de melhor dentro de nós e caminhamos em direção a escolha da vida. Não apenas da nossa vida, mas das pessoas que amamos e até das que amaríamos caso tivéssemos a oportunidade de conhecê-las.
Projetos arquitetônicos sustentáveis se diferenciam de não-sustentáveis muito mais que pela reutilização da água ou o aproveitamento da energia solar. Projetos sustentáveis se diferenciam por expor um estilo de vida condizente com um estado de espírito consciente em um nível supra-individual.
Portanto, sustentar ou não sustentar, eis a questão. Será mais nobre para nossa geração ficar conhecida por nossa luta pela vida concretizada literalmente em nossos edifícios ou continuarmos a erigir onerosos colossos parasitários?
Referência:
SHAKESPEARE, William. Hamlet, príncipe da Dinamarca. In: Shakespeare – tragédias, vol. I. Trad. de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros e Oscar Mendes. São Paulo: Abril cultural, 1978.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001.


